Abate com CO2 para o bem-estar animal – Parte I

Categoria: Geral | Publicado: quarta-feira, dezembro 23, 2015 as 15:34 | Voltar

O atordoamento dos animais é feito para lhes conferir um estado de insensibilização. Uma anestesia baseada na indução de dióxido de carbono origina uma grande preocupação de garantir todo o bem-estar animal.  Diminuir a dor, o estresse e o sofrimento são fundamentais para o produto final; quanto maior for o estresse, mais a carne será afetada, recebendo um impacto negativo em suas propriedades organolépticas. Cada vez mais consumidores exigem animais que sejam criados, transportados e sacrificados de maneira humana. (APPLEBY et al., 1997). Nas culturas ocidentais é um requisito legal que o abate animal seja feito de modo instantâneo e que os animais permaneçam nesse estado até que tenham perdido completamente sua atividade cerebral devido ao sangramento. Empregar um protocolo de atordoamento de qualidade (SQP = sigla em inglês para Stun Quality Protocol) tem ajudado a padronizar o método para decidir se os suínos serão atordoados adequadamente de ponta a ponta.
O que é?

É um método de atordoamento que emprega dióxido de carbono, ou, em alguns casos, utiliza-se CO2 e argônio, ou misturas de gases para criar um gás melhorado; normalmente, a mistura mais utilizada contém 80% de dióxido de carbono (RAJ et at., 1999). Durante o processo, a função neural do suíno enfraquece, causando hipoxia e hipercapnia, e o pH cerebral cai de 7,4 para 6,5, com a perda de consciência do animal (EISELE et al., 1967). A indução da anestesia a uma atmosfera de 80% inclui três etapas. A primeira tem uma duração aproximada de 20 segundos e é denominada etapa de analgesia. Durante esse período, a resposta do animal à dor e ao estresse diminui gradativamente; no aparelho respiratório, a inalação de CO2 provoca hiperventilação, que se manifesta por meio de inspirações curtas e profundas associadas a ofegos e chiados. Em alguns casos, podem aparecer espasmos faríngeos, laríngeos ou bronquiais. Imediatamente após a perda de consciência, vem a etapa de excitação, e, posteriormente, entre 26 e 35 segundos de exposição ao CO2, o animal entra na etapa de anestesia. Durante essa etapa, o animal perde sua postura normal e desaparecem o reflexo corneano, a sensibilidade à dor e a frequência respiratória; se o animal continuar inalando dióxido de carbono, ele morrerá. Para analisar se os suínos se encontram em estado de insensibilidade, Gregory et al. (1897) e Raj (1999) utilizaram os reflexos do córtex cerebral para avaliar a eficácia do CO2 no emprego do atordoamento de suínos; esses reflexos indicam que o animal está se recuperando do atordoamento.

O sistema de atordoamento com CO2 não requer a sujeição dos animais; na verdade, possibilita o atordoamento em grupo, diminuindo o nível de estresse. Para garantir o bem-estar animal, o atordoamento deve ter uma duração que não apenas inclua o período de anestesia até o sangramento, mas também a morte do animal. Para tanto, deve-se garantir um período de inconsciência de 24 segundos após o sangramento. Assim como nos animais atordoados eletricamente, a ausência de frequência respiratória  e de reflexo corneano indicam que o animal não recobrou a consciência. Para garantir um bem-estar animal durante o manuseio dos suínos após o atordoamento, o CO2 deve sempre induzir inconsciência e insensibilidade com duração profunda para que o animal sangre suficientemente. A insensibilidade não somente deverá ter como duração o período de atordoamento, como também para que o suíno alcance um grau de hipoxia cerebral, provocando insensibilidade e sangramento.

 

Como deve ser feito?

Os suínos permanecem em currais de espera de abate por um período maior que 72 horas se estiverem na parte coberta do matadouro; na prática, o tempo médio é de apenas algumas horas. Depois desse período, é levado do curral de retenção ao curral ou área de atordoamento, de onde os suínos são introduzidos em gaiolas. As instalações de descida dos animais para dentro da fossa costumam ser compostas por 6 ou 8 gaiolas, com capacidade para 2 a 5 suínos cada. Os animais são introduzidos nas gaiolas e baixados até o fundo da fossa, onde está a concentração máxima de CO2, com intervalos intermitentes devido à entrada e saída de animais das outras gaiolas. Antes de entrarem na câmara de anestesia, os suínos são separados em grupos menores e conduzidos automaticamente a câmaras pequenas feitas para um ou dois suínos (no máximo 3 ou 4, não mais que isso), que descem a um poço com concentração atmosférica de dióxido de carbono entre 80% e 90% durante tempo suficiente para mantê-los inconscientes até a morte do animal por sangramento. (Recomenda-se que os animais sejam expostos por, no mínimo, 130 segundos, a concentrações atmosféricas de CO2 superiores a 85%, e que o tempo de saída da câmara e a degola não sejam superiores a 30 segundos). Se os suínos não apresentarem reflexos ou sinais de respiração, vocalizações, convulsões, se não piscarem, não tiverem dor ou não apresentarem respostas óticas a estímulos em estado de profunda anestesia, o atordoamento se deu de maneira correta.

É importante monitorar a qualidade do atordoamento continuamente: em alguns suínos o reflexo da córnea (máximo de 5% de atividade corneana) ainda pode ser percebido 60 segundos após a perfuração; se a perfuração for feita abruptamente, diminui-se o risco de recuperação.

Carne tec

Publicado por: Iza Olmos Rodrigues de Lima

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